28/08/09








Inextricável

Rendilhava emoções, tecia caminhos delicados que nunca levavam seu corpo às pessoas que amava.

Era profundamente atrapalhada e, por vezes, matinha-se em braços errados, fazia juras desnecessárias, atirava-se no chão.

Porque era preciso amar, ela amava. Não sabendo como, inventava, romanceava e descomedia. Era boa em acreditar em mentiras e, melhor ainda, em não acreditar em verdades.

Tinha no bolso uma porção de amores platônicos, era assim que continuava amando, uma maquina fotografica, um livro velho, alguns amigos antigos e ramos de alecrim. Não precisa de muito, mas não sabia viver sem o que tinha.

Gostava de música, mas não sabia dançar. Adorava crianças, mas não queria ter filhos. Morava em capitais, mas sonhava com o interior. Falava de amor e, talvez, nunca fora amada.

Era frágil, feito porcelana de avó, e não eram poucas ou pequenas as ranhuras que tinha conquistado ao longo dos ultimos anos, mas... ela gostava de defeitos. Quando pequena, colecionava quadros tortos, pratos velhos, copos trincados e corações partidos.

Apaixonada por poesia, escrevia versos em guardanapos e imaginava que alguém os leria., distribuia cartas de amor para pessoas que não conhecia, rasgava-se em seda e festim para o atendente da padaria e, assim, coloria seu dia monocromático.

Estava acostumada com a vida que tinha, até que aqueles dois olhos estranhos surgiram e, pela primeira vez, ela sentiu… estava só!


11/05/09

Night and day, you are the one
only you beneath the moon and under the sun
Whether near to me, or far
It's no matter darling where you are
I think of you night and day.
(Cole Porter)


Quando não há calma na cama vazia,

e os deuses estalam os dedos em minhas retinas...

eu ainda sinto o seu perfume

Quando eu tento outros nomes em meus lençóis,

e a bossa no rádio não me excita mais,

eu penso em nós.

Quando tantas mãos seguram as minhas,

e eu continuo sozinha.

Quando amanhece e não é o seu rosto que eu vejo.

Quando anoitece e tudo em meu corpo é desejo.

O que mais seria?

Nostalgia

18/10/08




Sinais


Minha pele cobria o asfalto

Enquanto seu corpo inventava esquinas,

Éramos dois estranhos

Nas entranhas de uma colisão.

Minhas lágrimas percorriam avenidas

E suas mãos tateavam calçadas,

Éramos dois seres intangíveis.

Seus olhos eram lanternas

Que eu não podia ver,

Éramos a escuridão.

Eu sentia sede e você fome.

Éramos carne ao avesso.

Ao nos encontrarmos...

Éramos desejo.

11/10/08




Casual


Espalha tua saliva em meu corpo
e coloca minha pele abaixo de tuas unhas.
Deixa teu corpo sobre o meu
e me faz sentir o chão.
Escorrega devagar entre os meu cabelos
e me segura em tuas mãos.
Guarda um pouco de ti em mim e
sorri

porque amanhece depressa.

21/08/08





Um brinde

Todo copo tem um fundo
e no fundo eu sei...
não vais me saciar.
Segue até o osso
Que meu corpo guardou um pouco
Pra te dar.
Bebe o que há em mim
e vai.
Arranca-te da minha garganta!
Procura outra lingua para habitar.


Saúde.

19/08/08

Excadescere




Chorou.

A carne em brasa

Expeliu seus ossos corpo a fora.

Pensou nos olhos que sobrevoaram o seu.

Sentiu o gosto dele em todos os poros.

Imaginou unhas em sua pele,

peso em seu corpo...

madrugada.

Elevou-se a ponta dos pés e caiu.

Gemeu e mordeu os lábios.

Sua pele ardia e ela sentiu prazer.

Estava só.